Valdir Aguilera
 Físico e pesquisador

 

 

As 1001 noites - O corcunda, o alfaiate, o corretor cristão, o intendente e o médico judeu

Conta-se, ó rei afortunado, que vivia na antiguidade, no fundo das idades e dos séculos, numa cidade da China, um alfaiate próspero e de gênio alegre que gostava de divertimentos e passeava de vez em quando com a mulher nos jardins e nas ruas.

Certo dia, quando estavam voltando para casa após um desses passeios, cruzaram com um corcunda de aparência tão engraçada que nem a tristeza nem a melancolia podiam viver um instante na sua presença, e o homem sisudo ria gostosamente à sua vista.

Para distrair-se com sujeito tão jocoso, o alfaiate e sua mulher convidaram-no para sua casa. O corcunda aceitou. Enquanto estavam jantando, a mulher do alfaiate, querendo brincar, pegou uma posta de peixe inteira e enfiou-a na boca do corcunda; e, pondo a mão nos lábios do infeliz, obrigou-o a engoli-la. Por inclemência do destino, havia dentro da posta uma espinha enorme que atravessou a garganta do corcunda, e ele morreu na hora.

Quando o alfaiate viu o corcunda morto, exclamou:

— Não há poder e força senão em Alá! Que azar que este homem tenha morrido cm nossa casa!
— De que adianta lamentar-se! censurou a mulher. Levanta-te e ajuda-me a carregar o corpo para fora. Cubramo-lo com um pano de seda e levemo-lo agora mesmo na escuridão da noite. Andarei na frente. Tu, atrás, repetirás numa voz audível: "Este é meu filho. E esta é sua mãe. Estamos procurando um médico. Onde encontrar um médico de noite?"

Executaram imediatamente seu plano e repetiram tantas vezes: "Onde encontrar um médico? Queremos um médico" que os transeuntes indicaram-lhes a porta de um médico judeu. Chamaram de fora e foram atendidos por uma enfermeira negra. Perguntaram:

— Onde está o médico?
— Está no segundo andar preparando um relatório, respondeu a enfermeira.
— Queremos que ele examine logo nosso filho. Dá-lhe este dinar adiantado e pede-lhe que desça.

Assim que a enfermeira se afastou, deixando a porta aberta, o homem e a mulher entraram, largaram o corpo numa poltrona e fugiram. Ao ver o dinar, o médico judeu ficou tão satisfeito que esqueceu de apanhar uma lâmpada e desceu a escada precipitadamente no escuro. Seu pé tropeçou, e ele caiu sobre o corcunda. Examinou-o e, achando-o sem vida, pensou que ele próprio o tinha matado. Gritou:

— Jeová! Jeová! Pelas dez palavras sagradas, como poderei livrar-me deste corpo?

Consultou a mulher. A mulher invocou o nome de Harun, de Josué, filho de Nun, e de outros santos judeus, e gritou:

— Devemos nos livrar dele já. Se for encontrado aqui ao levantar do Sol, estaremos perdidos. Vamos levá-lo até o terraço e atirá-lo para a casa de nosso vizinho muçulmano. Ele é intendente da cozinha imperial e sua casa está infestada de ratos, gatos e cachorros. Devorarão o corpo, e ninguém saberá de nada.

Levaram o corpo até o terraço e baixaram-no mansamente até o pátio do muçulmano, deixando-o encostado na parede da cozinha. Aconteceu que, naquele mesmo momento, o intendente voltava para a casa e viu uma figura de homem apoiada na parede da cozinha.

— Ah! exclamou. Não eram então os cachorros e os gatos que roubavam minhas carnes, mas este ladrão.

Pegou num porrete, aproximou-se do homem e bateu repetidamente nele. Mas a figura não se mexeu. Olhando bem, o intendente deu-se conta de que tinha batido num morto. Dirigiu-se a ele, dizendo:

— Não te bastava, ó infeliz, ser corcunda? Tinhas que ser ladrão também?

Vendo que a noite estava ainda escura, carregou o corpo até os confins do mercado e deixou-o à porta de uma loja. Ora, um corretor cristão bêbado que repetia: "Cristo está chegando! Cristo está chegando!" passou por lá e, imaginando que o corcunda queria atacá-lo, saltou sobre ele e cobriu-o de socos. Um guarda municipal acorreu e, vendo o corcunda morto, gritou:

— Onde já se viu isto? Um cristão ousando matar um crente!

Amarrou o corretor e levou-o à casa do uáli. Diante da evidência, o uáli só podia condenar o cristão à forca. Os guardas levaram o condenado até a praça pública para ser enforcado. Mas enquanto preparavam a forca, o intendente da cozinha do sultão chegou, correndo e gritando:

— Parai! Parai! Fui eu que matei o homem.
— Por que o mataste? perguntou-lhe o uáli.
— Encontrei-o encostado à parede de minha cozinha e pensei que fosse ele que roubava todos os dias minhas provisões. Bati nele com um porrete, e ele morreu. Carreguei-o nas costas e deixei-o à porta da loja. Sou eu que devo ser enforcado.

Ouvindo esta confissão, o uáli ordenou aos guardas que libertassem o cristão e enforcassem o intendente. Mas enquanto preparavam a forca, apareceu de repente o médico judeu, forçou caminho no meio da multidão e gritou:

— Parai! Parai! Fui eu que matei o homem. Veio à minha clínica para ser medicado. Tropecei no escuro, caí sobre ele e provoquei a sua morte.

O uáli deu ordens para enforcar o médico judeu. Mas antes que a ordem fosse cumprida, o alfaiate chegou, gritando:

— Parai! Parai! Só eu matei aquele homem. Não enforqueis um inocente. Enforcai-me.

E contou a história do jantar, da posta de peixe e da caminhada até a casa do médico. Nesta altura, o uáli estava assombrado como nunca em toda a sua vida. Disse: "A história deste corcunda deveria ser registrada nos anais e contadas nos livros." E mandou o carrasco libertar o judeu e enforcar o alfaiate.

Ora, este corcunda era o bobo predileto do sultão. Quando sumira, o sultão perguntou por ele, e os informantes lhe contaram que ele tinha sido morto e que quatro pessoas se haviam declarado sucessivamente responsáveis por sua morte. Divertido e curioso, o sultão mandou que ninguém fosse enforcado e que todos comparecessem diante dele. O mensageiro do sultão chegou minutos antes que o alfaiate fosse enforcado. Libertaram-no, e todos foram à presença do sultão.

O uáli beijou a terra entre as mãos do sultão e contou-lhe a história do corcunda, do início ao fim. O sultão ficou maravilhado, riu gostosamente e mandou o historiador do palácio registrar essa história em letras de ouro líquido. Depois, perguntou a todos os presentes:

— Já ouvistes histórias iguais a esta?

O corretor cristão, o intendente, o médico judeu e o alfaiate aproximaram-se um por um, beijaram a terra entre as mãos do sultão e contaram histórias supostamente iguais à do corcunda. O sultão gostou de todas elas, mas não conseguiu superar a melancolia que se tinha apoderado pouco a pouco dele por causa da morte de seu bobo predileto.

Havia entre os presentes um barbeiro. Após ouvir as diversas histórias e ter sido informado da causa da morte do corcunda, abanou a cabeça gravemente e disse:

— Por Alá! Esta é a coisa mais extraordinária que já ouvi. Levantai o pano que cobre o corpo do defunto e deixai-me vê-lo.

Assim que o corpo foi descoberto, o barbeiro aproximou-se dele, sentou-se a seu lado e colocou-lhe a cabeça sobre os joelhos. Após observar-Ihe atentamente a face por muito tempo, soltou alegres gargalhadas e disse:
— Ó afortunado rei, juro que há ainda vida neste corpo. Vou prová-lo.

Tirou de um frasco um ungüento que passou sobre o pescoço do corcunda. Depois, introduziu-lhe na garganta um par de pinças de ferro e retirou a posta de peixe com a espinha. Imediatamente, o corcunda tossiu fortemente, abriu os olhos e levantou-se, proclamando:
— Não há Deus senão Alá, e Maomé é o profeta de Alá.

Os presentes ficaram pasmos e cheios de admiração pelo barbeiro. O rei elogiou-o, dizendo:

— Nunca vi um homem ressuscitar outro homem. É o prodígio dos prodígios!

Todos repetiram:

— É o prodígio dos prodígios!

O rei da China mandou escrever a história do corcunda e do barbeiro em letras de ouro para ser guardada na biblioteca real. E distribuiu vestes de honra a todos os réus: ao alfaiate, ao médico, ao intendente, ao corretor, e deu-lhes lugares de honra em sua corte. Finalmente, cobriu o corcunda e o barbeiro de presentes valiosos, nomeou o corcunda seu companheiro oficial e o barbeiro, seu barbeiro pessoal. E todos saíram satisfeitos e pedindo as bênçãos de Alá sobre o sultão.


 

De "O corcunda, o alfaiate, ..." para "Biblioteca"

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