Valdir Aguilera
 Físico e pesquisador

 

 

As 1001 noites - A história esplêndida do Príncipe Diamante

Conta-se, nos livros dos sábios, poetas e outros homens superiores, que viveu outrora um rei magnífico que era acompanhado a cada passo pela felicidade e a boa fortuna. Sua justiça era mais rigorosa que a de Kisra Anuchiruan, e sua generosidade, mais liberal que a de Hatim Tay. Louvado seja Aquele que dotou a terra de alguns homens excepcionais, assim como colocou o sol no firmamento, deu beleza às mulheres e rosas à primavera. Esse rei era chamado Chams Xá e tinha um filho cujos encantos ultrapassavam o esplendor das estrelas quando brilham sobre o mar. Seu nome era Almás, Diamante. Um dia, Diamante disse ao pai:

– A minha alma está triste e cansada da cidade. Preciso ir caçar, senão sou capaz de rasgar as vestes e de cometer alguma loucura.

Como amava o filho, o pai deu as ordens necessárias, e os falcoeiros prepararam os falcões, os palafreneiros arrearam os cavalos, e o príncipe Diamante encabeçou assim uma brilhante comitiva a caminho dos lugares de caça.

Chegaram ao sopé de uma montanha tão alta que seu cume perfurava o céu. Lá viram uma nascente e um gamo bebendo nesta nascente. Diamante, encantado com esse quadro, mandou parar os cavaleiros e se lançou sozinho no rasto do belo animal. Mas o gamo fugiu com a velocidade de uma flecha. Diamante seguiu-o através de planícies e montanhas até que o cavalo, espumante e sem fôlego, parou num deserto onde não havia traço de seres humanos, e só se sentia a presença do Invisível. Como o gamo havia desaparecido atrás de uma duna de areia, Diamante escalou a duna e, chegando ao cume, avistou um oásis verdejante entrecortado de regatos e ornado de flores vermelhas e brancas que pareciam refletir a penumbra do crepúsculo e a tímida clareza da aurora. Diamante desceu até o oásis e lá, ao abrigo de uma árvore centenária, deparou com um trono solitário. Um rei velho coroado mas descalço, ocupava o trono. Cumprimentaram-se, e o príncipe perguntou ao rei o que o levara a refugiar-se naquele lugar desolado. O rei contou-lhe sua espantosa história:
"Saberás, ó belo adolescente, que antes de vir para esta ilhota no meio do deserto, eu reinava sobre as terras de Babil. Alá tinha-me outorgado sete filhos varões. Tudo no meu reino corria na paz e na prosperidade até que, um dia, meu filho mais velho soube por um caravaneiro que, nas terras distantes de Sim e Massim, havia uma princesa tão bela que sua aparição escurecia a face da lua cheia. Chamava-se Mohra. Soubemos também pelo caravaneiro que essa beleza acabava de chegar à primavera de sua exuberância, e as abelhas começavam a enxamear em volta dela. Ela, porém, tinha idealizado um quebra-cabeça, e todo pretendente devia comprometer-se a resolver o enigma ou deixar-se degolar. A pergunta era: `Que relação existe entre a pinha do pinheiro e a pinha do cipreste?' Quando eu soube dessa condição, quis invadir o reino de Tamuz e raptar a princesa. Mas meu filho opôs-se, dizendo: `Meu pai, não é digno de nós arrancar pela força o que não podemos conseguir pelo mérito.' Compreendi então que ninguém consegue apagar uma palavra sequer do livro do destino.   
   Princesa Mohra
Meu filho partiu, não soube responder à pergunta e foi degolado. "Ao sabê-lo, chorei todas as lágrimas do desespero. Cobri a cabeça de cinza. Vesti-me de luto. Meus familiares imitaram-me. Mas antes mesmo que o tempo pudesse nos trazer algum consolo, meu segundo filho foi dominado pela mesma paixão. Não soube responder à pergunta e foi também degolado. E todos os meus outros cinco filhos percorreram o mesmo trágico caminho. Eu, incuravelmente ferido, atravessei como um sonâmbulo as planícies e os desertos e cheguei, como vês, a este fim de mundo onde, sentado num trono vazio, espero a chegada da morte.

Diamante saiu deste encontro cabisbaixo e pálido. Chegou à casa mergulhado na mais negra tristeza, pois o amor da princesa Mohra havia-lhe invadido o coração por sua vez. Quando revelou seu segredo ao pai, este quis logo andar seus embaixadores pedir ao rei Kamuz a mão da filha para Diamante. Mas Diamante opôs-se, dizendo:

– Antes, irei pessoalmente, darei a resposta exigida e conquistarei a princesa com meu mérito.

As súplicas do pai, as lágrimas da mãe de nada adiantaram. E ele partiu para as terras de Sim e Massim.

Quando lá chegou, foi contemplar o palácio daquela que o tinha arrancado de sua pátria. Enquanto o rondava, reparou num canal, mergulhou na água e deixou-se levar para dentro do jardim. Lá, passeando entre as árvores e as flores, achou-se de repente em frente a um tanque de mármore à beira do qual se estendia indolentemente, como uma pantera em repouso, uma adolescente tão bela que todo o jardim brilhava de seu esplendor. Concluiu que estava diante da princesa Mohra. Enquanto permanecia assim em êxtase à beira de um córrego, uma das acompanhantes da princesa viu-o e apressou-se em dizer a sua ama:

– Ó coroa de nossas cabeças, estava andando ao longo do córrego quando vi, refletida na água, a imagem de um adolescente tão belo que não sei se pertence aos filhos dos homens ou dos gênios.

A princesa mandou outra acompanhante verificar, e esta voltou gritando:

– Vi-o! Mas não consegui descobrir se é um anjo ou um homem.

A essas palavras, a princesa sentiu-se atiçada pela curiosidade e foi olhar. E ficou pálida, vítima de uma paixão repentina e violenta. Gritou a uma de suas escravas:

– Vai trazê-lo à minha presença, senão morro.

Diamante, receando que a princesa chamasse os guardas do pai para castigá-lo por ter invadido o jardim, fingiu-se de louco. Assim, quando a escrava o tomou pela mão com todas as precauções com que se segura uma mariposa e conduziu-o à presença da princesa sem par, o adolescente de cara de sol desatou a rir e a dizer disparates: "A mosca transformou-se em búfalo! O algodão virou-se argila por ação da água! O rato devorou o gato, e eu vou devorar todos vós!"


A princesa acabou por convencer-se de que ele era mesmo louco e, decepcionada, entrou em convulsão como um franguinho ao qual torcessem o pescoço, pois o amor tinha-lhe invadido o corpo e o coração pela primeira vez na sua vida. Lembrou-se, contudo, que os loucos eram grandes santos, atormentados pelos gênios perversos e os demônios. Instalou o jovem num pavilhão especial do jardim e mandou suas escravas servi-lo com a máxima veneração. E elas passaram a disputar quem seria a primeira a varrer o chão onde ele pisava ou a recolher as sobras de suas refeições. Faziam relíquias com as aparas de suas unhas.

Ora, um dia, a moça Ramo-de-Coral, a favorita da princesa Mohra, ao visitá-lo, perguntou-lhe o que o levara a procurar aquela terra. Respondeu:

– Cheguei, ó encantadora, após peripécias e riscos sem conta, só para responder à pergunta da princesa Mohra: Que relação existe entre a pinha do pinheiro e a pinha do cipreste? Se conheces a resposta e ma comunicas, a sensibilidade de meu coração velará sobre ti.


Ramo-de-Coral
– Ó insigne mancebo, respondeu Ramo-de-Coral, aprecio a sensibilidade de teu coração; mas se quiseres que responda à pergunta, deves jurar-me, pela nossa fé, que me tomarás por esposa.

Diamante jurou, e ela disse-lhe:

– O segredo da pergunta só é conhecido numa cidade chamada Wakak. Para descobri-lo, precisarás ir até lá. É tudo que posso dizer-te.

Imediatamente, Diamante saiu do jardim sem ser visto, foi ao khan, montou um cavalo capaz de ultrapassar o raio e iniciou a busca, confiante no seu destino. Não conhecendo o caminho de Wakak, consultou um dervixe que encontrou numa encruzilhada, e este disse-lhe:

– Abençoado moço, Wakak está situada no centro da montanha Kaf. É guardada por Mareds e Afarit. Aconselho-te a desistir de um empreendimento rodeado de perigos.

Diamante respondeu que preferiria morrer nas suas tentativas a desistir por medo. Então, o dervixe encaminhou-o para a primeira etapa de sua travessia. Diamante chegou assim a um palácio grandioso cuja porta estava entreaberta. Pela abertura, viu uma jovem tão bela que faria torcer-se de inveja a lua nova. Tinha as cores da tulipa, e suas pupilas rivalizavam com as das gazelas da China.

Diamante abriu a porta e entrou.

           Latifa
– Quem és tu, mancebo cheio de audácia? perguntou a moça. Como ousaste entrar neste jardim onde nem as aves vêm bater as asas? Diamante contou-lhe sua história, e Latifa - tal era seu nome - disse-lhe: – Ó cipreste ambulante do bosque da beleza, cuja formosura ilumina esta casa e este jardim, renuncia a este sonho louco, que poderá trazer-te a morte, e permanece aqui comigo para que tua mão abençoada pouse no colo de meu desejo.

Mas ele respondeu:

– Enquanto não tiver ido à cidade de Wakak e resolvido o enigma, todos os prazeres me serão proibidos.

Latifa, enciumada e furiosa, transformou Diamante num gamo.

Ora, Latifa possuía uma prima igualmente bela chamada Camila. Esta adivinhou a trapaça da prima e, por compaixão, desfez o sortilégio. Mas, vendo Diamante tão bonito, procurou guardá-lo para si, dizendo-lhe:

– Diamante, luz dos meus olhos, liberta-te da obsessão perigosa e estéril que te domina. Fica, antes, comigo e enche o copo de tua vida com o vinho da volúpia.

Mas Diamante agradeceu, desculpou-se com delicadeza e prometeu voltar e casar-se com ela assim que tivesse atingido seu alvo.

Disse Camila:


       Camila
– Ó jovem príncipe, cuja beleza escravizou meu coração, já que ninguém pode fugir do destino que leva ao pescoço, quero dar-te três armas que me couberam em herança e que te ajudarão a vencer os inimigos que certamente vais encontrar pelo caminho: um arco de ouro com flechas, uma espada de aço da China e um punhal com cabo de jade. Quando tiveres vencido teus inimigos graças a essas armas, encontrarás meu tio As-Simurg,um gigante que te ajudará a entrar em Wakak e a decifrar o enigma.

Acrescentou:

– Agora que partes, deixarei sempre aberta no meu coração a porta da tristeza e só voltarei a sorrir quando tu voltares.

Diamante montou no seu cavalo e partiu. O primeiro inimigo que encontrou foi um exército de etíopes gigantes, medindo dez côvados de altura. Diamante sacou a espada dada por Camila e matou com a maior facilidade um grande número deles. Os outros fugiram. O segundo inimigo foi um exército dos filhos do alcatrão, numeroso como um enxame de vespas silvestres e dirigido pelo sanguinário Mak-Mak, que silvava como a víbora cornuda. Apanhando o punhal com cabo de jade, Diamante plantou-o nas costelas do gigante que caiu como uma árvore cortada. Vendo seu chefe aniquilado, os pretos tremeram e fugiram. Diamante perseguiu-os e matou muitos deles.

Assim fazendo, Diamante libertava sem saber a princesa Aziza, soberana legítima daquela terra, que Mak-Mak havia destronado. Diamante restabeleceu-a no seu trono. E ela, por gratidão, apresentou-o a As-Simurg; e este aceitou levá-lo nas costas e sobrevoar com ele os sete mares até a cidade de Wakak
            Aziza
Depositou-o no terraço mais alto da cidade - uma cidade branca e cercada de vergéis. Ao despedir-se dele, As-Simurg entregou-lhe um punhado de pelos da própria barba, dizendo-lhe:

– Sempre que precisares de mim, queima um destes pelos. Apresentar-me-ei a ti imediatamente. Adeus.

Enquanto pensava no que fazer, Diamante viu avançar para ele um adolescente simpático, chamado Farah, que se tornou seu amigo na hora. Diamante contou-lhe o motivo de sua viagem.

– Ó Diamante, disse o moço, saberás que o rei manda matar todo aquele, morador ou forasteiro, que pronuncia o nome cipreste ou pinha do pinheiro. Pois Cipreste é precisamente ele, e Pinha do Pinheiro é sua esposa. E somente ele conhece as relações que os ligam. Posso conduzir-te à presença dele. E como, decerto, conseguirás agradar-lhe, talvez desate o nó que te aflige.

O rei gostou, de fato, de Diamante e prometeu satisfazer-lhe qualquer desejo. Mas quando Diamante formulou aquela pergunta, o rei entrou numa cólera terrível e pediu a Diamante para trocar esse pedido por qualquer outro, fosse a metade do reino.

Diamante, porém, insistiu, e como o rei nunca renegava uma promessa feita, resignou-se a revelar um segredo que lhe era tão caro quanto a própria vida. Obedecendo às suas ordens, os guardas esvaziaram a sala e trouxeram um galgo preso por uma correia cravejada de pedrarias e uma adolescente radiante de beleza de mãos amarradas às costas, que ora chorava, ora sorria - suas lágrimas transformando-se em pérolas e seus sorrisos, em pétalas de rosas. Disse o rei:

– Saberás, ó filho de Chams Xá, que esta adolescente amarrada se chama Pinha do Pinheiro e é minha esposa. E eu sou o rei Cipreste. Ela é filha de um rei. Casei-me com ela sob o efeito de uma louca paixão; depois, com a permissão de seus pais, viemos morar na minha cidade de Wakak. Certa noite, acordei e notei que, apesar do calor sufocante, minha mulher tinha as mãos e os pés gelados. Alarmado, perguntei-lhe se estava doente. Respondeu "não" com indiferença e alegou que uma ablução a deixara assim. Mas o caso se repetiu e senti-me tomado de graves suspeitas. No entanto, guardei essas suspeitas no cofre de meu coração e dei três voltas à chave do silêncio na porta da minha língua. Uma noite, fingi que estava dormindo e vi esta mulher de maldição levantar-se, furtiva como uma gata, despejar-me na boca uma taça de narcótico, que procurei não engolir. Confiante nos efeitos de sua malícia, e pensando que eu já estava anestesiado, colocou Kohl nas pálpebras, nardo no cabelo, pintou as sobrancelhas, perfumou-se, cobriu-se de jóias e desceu à cavalariça. Lá montou o melhor cavalo e partiu. Segui-a correndo, tendo por único companheiro este cão fiel, ora tropeçando, ora caindo e machucando-me. Finalmente, chegamos ao mesmo tempo a uma planície rasa onde só havia uma cabana de barro, habitada por sete negros. Minha mulher entrou na cabana e trancou a porta. Segui-a e espreitei pelo buraco da fechadura. E vi os sete negros caírem em cima dela quais sete búfalos, e vi-a responder às suas violências com suspiros de volúpia. Não podendo tolerar este espetáculo, forcei a porta e matei os sete negros abjetos. Depois amarrei Pinha do Pinheiro e trouxe-a para casa. Aí, tens, ó mancebo engenhoso, toda a história das minhas relações com Pinha do Pinheiro, que nenhum ouvido humano jamais ouvira antes de ti.

Diamante agradeceu o rei Cipreste e beijou o chão aos seus pés e saiu do palácio aliviado e feliz. Foi despedir-se de Farah e subiu ao terraço, onde queimou um pelo da barba de As-Simurg. O gigante surgiu imediatamente, levou Diamante nas costas e atravessou com ele os sete mares de volta.

Diamante foi diretamente à casa de Aziza, aquela cujas faces são como a flor da romãzeira, e os dois passaram horas entrelaçados. E tornaram-se marido e mulher.

– Transporta-nos agora até a casa de tua sobrinha Camila, pediu Diamante ao gigante. O que foi feito num momento.

Após os primeiros transportes de alegria, Diamante pediu a Aziza que o deixasse a sós com Camila por uma hora. Aziza atendeu de bom grado. Quando voltou, os dois já estavam casados.

Para agradecer à vida tanta generosidade, decidiram todos juntos perdoar a Latifa e fazer dela a terceira esposa de Diamante.

Foi então a vez de Ramo-de-Coral. O gigante levou Diamante e suas três mulheres ao palácio da Princesa. Diamante apresentou-lhes Ramo-de-Coral e elas acharam-na encantadora. Uma vez resolvidos todos os assuntos entre Diamante e suas quatro esposas, pensou-se no assunto principal, origem de tantas aventuras. Diamante foi então sozinho ao palácio onde estavam penduradas dezenas de cabeças de pretendentes infelizes e tocou o tambor para anunciar à princesa a chegada de um novo pretendente, prestes a dar a resposta certa ou a ter a cabeça cortada.

O rei, pai da princesa, reconheceu Diamante e pediu-lhe que desistisse de uma tarefa que lhe custaria a vida. Mas Diamante assegurou-lhe que tinha a resposta certa. Deu a resposta, contando toda a história das relações do rei Cipreste com sua mulher Pinha do Pinheiro. O espanto e a alegria foram gerais. Mohra estava particularmente feliz. Casaram-se imediatamente e despediram-se do pai de Mohra, prometendo visitá-lo com freqüência e partiram com as quatro outras esposas de Diamante para o reino de Chams Xá onde foram recebidos com regozijos nunca vistos. E as cinco esposas deram a Diamante muitos filhos maravilhosos.

De "A história esplêndida do Príncipe Diamante" para "Biblioteca"

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