Anais da História do Almirantado Inglês
Texto publicado no jornal australiano Mercury, de 9
de setembro de 1861. Para vê-lo em sua versão original, clique no
link que foi encontrado e nos enviado por Anderson Rocha Tavares.
No ano de 1828, Sr. Robert Bruce era o imediato de uma
embarcação que fazia negócios entre Liverpool e New Brunswick.
Perto das margens de Newfoundland, o capitão e o imediato estavam um dia
calculando o andamento da viagem – o imediato na cabine privativa e o capitão na
cabine próxima a ela. Absorto em seu trabalho, Bruce não percebeu que o capitão
tinha ido ao convés; e, sem olhar em volta, disse: “Calculei nossa
longitude desta forma; estaria certa? Como está em seu cálculo, senhor?”
Não recebendo resposta, ele repetiu a pergunta, olhando sobre seu ombro e
notou, como ele pensava, o capitão ocupado escrevendo em sua lousa. Ainda
sem receber resposta, ele levantou-se e ficou de frente à porta da cabine quando a
figura, que ele confundiu com o capitão, olhou para ele revelando-se um
completo estranho.
Bruce, apavorado com o olhar sério e silencioso, correu para o convés e o
capitão, naturalmente, perguntou qual era o problema.
“O problema, senhor, quem é aquele em sua mesa?”
“Ninguém, que eu saiba.”
“Mas há, senhor, há um estranho lá.”
“Um estranho! Você deve estar sonhando. Deve ter visto o comissário ou o segundo imediato.
Quem mais iria se aventurar até lá sem minhas ordens?”
“Mas, senhor, ele estava sentado em sua cadeira, de frente para a porta,
escrevendo eu sua lousa. Então olhou em cheio para mim, e se algum dia vi
um homem clara e distintamente nesse mundo, esse dia foi hoje.”
“Ele! Quem?”
“Deus sabe, senhor, eu não. Eu vi um homem – e um homem que eu nunca vi antes em
minha vida.”
“Você deve estar ficando louco, Sr. Bruce. Um estranho! e estamos navegando há quase
seis semanas?”
“Eu sei, senhor, mas eu o vi.”
“Desça, e veja quem é.” Bruce hesitou.
“Eu nunca acreditei em fantasmas,” disse, “mas se a verdade deve ser dita,
senhor, eu prefiro não enfrentá-lo sozinho. Prefiro que nós dois desçamos juntos.”
Eles foram – o capitão à frente – mas ninguém estava lá. Pegando a lousa,
o capitão viu as seguintes palavras claramente escritas nela, “Vire para noroeste”. Bruce
afirmou que não era sua caligrafia, e o capitão o fez escrever as mesmas palavras
para compará-las. O mesmo ele fez com o comissário, o segundo imediato, e com todo
homem da tripulação que soubesse escrever, mas nenhuma caligrafia correspondeu.
Quando todos os cantos do navio foram vasculhados de proa à popa, com a
ansiedade de uma curiosidade empolgada, e nenhum estranho foi encontrado, o
capitão considerou seriamente se o aviso não deveria ser atendido. Finalmente ordenou
o imediato a mudar o curso para noroeste e colocou um homem de
confiança para ficar atento. Pelas 15 horas um iceberg foi avistado, um navio avariado preso
nele e com muitas pessoas a bordo.
Aproximando-se mais, notou-se uma embarcação totalmente destroçada, suas provisões exauridas
e sua tripulação e passageiros quase morrendo de fome. Foram enviados botes de resgate e
quando um dos homens do terceiro bote subia ao navio, o imediato voltou-se todo
confuso – pois era a face, a pessoa, a roupa daquele que ele tinha visto na mesa do capitão
três ou quatro horas antes.
Quando a agitação acabou e a embarcação retomou seu rumo, o imediato chamou o
capitão de lado. “Parece que não foi um fantasma que eu vi hoje, senhor. O homem
está vivo. Um dos passageiros que acabamos de salvar é o mesmo homem que vi escrevendo na
sua lousa ao meio-dia. Eu poderia jurar perante um tribunal.”
Juntos procuraram o homem: e o capitão, convidando-o à cabine, pediu-lhe
o favor de escrever na lousa. “Poderia escrever ‘Vire para noroeste?’ ”
O passageiro, altamente intrigado pelo pedido, concordou assim mesmo. O
capitão ficou ao lado, e dando-lhe a lousa com o outro lado para cima,
disse
“Você diria que essa é a sua escrita?”
“Eu não preciso dizer, pois você me viu escrever.”
“E esta?” disse o capitão, virando a lousa. O passageiro ficou confuso.
“Eu só escrevi uma destas. Quem escreveu a outra?”
“Isso é mais do que eu posso dizer-lhe, senhor. Meu imediato diz que você
escreveu isso aqui – sentado nesta mesa – ao meio-dia de hoje.”
A conversa continuou e a ela se juntou o capitão do navio naufragado.
Ele explicou que aquele senhor, algum tempo antes do meio-dia, caiu no que pareceu ser um
sono profundo e ao acordar, cerca de uma hora depois, expressou confiantemente esperança de
um socorro dizendo que sonhou estar a bordo de uma embarcação e descreveu sua aparência e
equipamento exatamente como esta que estamos vendo. O passageiro afirmou que não tinha lembrança
de sonhar que escreveu coisa alguma. Ele teve a impressão, sem saber como, que a
embarcação estava vindo ao resgate.
“Há outra coisa muito estranha sobre isso,” adicionou o passageiro, “tudo aqui a bordo
parece-me bem familiar, apesar de eu estar bastante certo de que nunca estive em sua
embarcação antes.”
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De "Um caso documentado de desdobramento astral" para a primeira página
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