Valdir Aguilera
 Físico e pesquisador

 

 

História do racionalismo - 51

José Alves Martins

Sócrates: 'Apenas meu corpo será sepultado'

Como foi dito em artigo anterior, Sócrates foi julgado e sentenciado a beber cicuta, acusado, injustamente, de ser o mentor intelectual de rebelião contra o governo democrático de Atenas (regime político então em fase de decadência), de negar os deuses e "corromper" os jovens que participavam de suas discussões filosóficas. Corromper os jovens! Não podia haver acusação mais falsa contra o filósofo. Justamente ele, que, entre outras lições, preceituara aos moços que acorriam às reuniões com ele, sempre em praça pública: "Conhecer a virtude torna-se o principal objetivo do verdadeiro conhecimento; só pratica o mal quem ignora o que seja a virtude; e quem tem o verdadeiro conhecimento só pode agir bem". Em última análise, na verdade, o mestre foi condenado por causa de sua "abominada filosofia aristocrática", assim definida por seus acusadores e desafetos, e talvez até por defender e proclamar, em nome da razão, o direito e a necessidade da liberdade de pensamento.

Leia a seguir o relato de como terminaram os dias de Sócrates, primeiro e grande filósofo de Atenas - e primeiro mártir da filosofia. Escrito por Platão, "em prosa mais bela que poesia", eternizou um dos momentos mais sublimes e comoventes da história humana.

*   *   *
"– Mostrai-vos alegres – exortou Sócrates aos amigos (seus dedicados discípulos), que se entristeciam - e dizei-vos que ides sepultar apenas meu corpo.

Ao acabar de proferir tais palavras, Sócrates levantou-se e dirigiu-se ao banheiro com Críton, que nos mandou ficar à espera; e esperamos, a conversar e a falar sobre a grandeza de nossa dor. Ele era como um pai de quem íamos nos ver separados, e teríamos de passar como órfãos o resto de nossa vida. Já se avizinhava então a hora do pôr do sol, pois se passara muito tempo desde que Sócrates se dirigira à sala do banheiro. Ao sair, sentou-se novamente conosco, mas não nos dissemos muita coisa. Em pouco, entrou o servidor dos Onze e se postou junto dele, dizendo:

– A vós, Sócrates, que reconheço ser o mais nobre e o melhor de todos os que têm estado neste lugar, não atribuirei os sentimentos de outros homens, que se encolerizam e praguejam contra mim quando, em obediência às autoridades, mando-os beber o veneno. Tenho certeza de que não vos enraivecereis, já que cabe a outros, não a mim, a culpa desse ato. Assim, eu vos saúdo e exorto a sofrer cheio de ânimo o que não pode ser evitado. Conheceis a minha missão. – E nesse ponto, prorrompendo em pranto, voltou-se e retirou-se.

Vendo-o sair, disse Sócrates:

– Retribuo tua saudação e procederei segundo mandas. – Em seguida, para nós: – Este homem é cativante. Desde que estou preso, vem sempre ver-me e agora mostra-se generosamente condoído de minha sorte. Mas devemos fazer o que ele diz, Críton. Que tragam a taça, se já prepararam o veneno; se não, que o faça o encarregado disso.

Críton respondeu:

– Mas os raios do Sol ainda iluminam os cimos dos montes, e muitos houve que tomaram a bebida mais tarde; e, depois de a mandarem tomar, ainda os deixaram comer e beber e entregar-se aos prazeres do amor. Não vos apresseis, portanto. Ainda não chegou a hora.

Replicou-lhe Sócrates:

– Sim, Críton, esses a que vos referis andaram bem procedendo assim, já que achavam proveitosa a demora. Quanto a mim, tenho razão de não me portar desse modo, pois não julgo que lucre alguma coisa bebendo um pouco mais tarde o veneno. Estaria a preservar uma vida que já perdi. Com isso apenas enganaria a mim mesmo. Peço-vos, pois, que façais o que digo.

Ouvindo essas palavras, Críton fez um sinal a um escravo que se achava perto. O escravo afastou-se. Em seguida voltou com o carcereiro a trazer a taça de veneno. Disse-lhe Sócrates:

– Meu bom amigo, como tendes experiência destas coisas, dizei-me como devo proceder.

O carcereiro respondeu:

– Bebei a cicuta e ponde-vos a andar até sentirdes as pernas fracas; deitai-vos após, e o veneno produzirá seu efeito. – Ao mesmo tempo oferecia a taça a Sócrates, que, do modo mais natural e gentil, sem o menor medo nem mudança de cor ou de expressão, olhando fixamente o carcereiro, conforme era seu costume olhar os homens, pegou a taça e disse:

– Que achais da ideia duma libação a algum espírito, derramando um pouco desta bebida? Posso ou não fazê-la?

O carcereiro respondeu:

– Nós, Sócrates, preparamos apenas a quantidade que julgamos necessária.

– Compreendo – volveu o filósofo. – Mesmo assim desejo que os espíritos favoreçam minha viagem deste mundo para o outro, e possa esse meu desejo, que será minha prece, ser atendido por eles. – Então, levando a taça aos lábios, bebeu rápida e corajosamente a cicuta.

Até esse instante a maioria dos presentes conseguira dominar a própria dor, mas, vendo-o começar a beber e por fim esgotar a taça, não mais nos pudemos conter. Apesar de meus esforços, o pranto borbotou-me dos olhos. Cobri o rosto e chorei por mim mesmo, pois não pranteava, certamente, por ele, e sim por evocar minha desgraça de perder tal companheiro. Não fui o primeiro, pois Críton, sentindo-se incapaz de recalcar as lágrimas, levantara-se e retirara-se. Eu fui depois ter com ele, e nesse instante Apolodoro, que estivera a chorar todo o tempo, prorrompeu em altos soluços, que acabaram de fazer-nos fraquejar. Unicamente Sócrates se mantinha calmo.

– Para que tanto espalhafato? – perguntou. – Mandei que as mulheres saíssem, sobretudo para assim não procederem, pois ouvi dizer que um homem deve morrer em paz. Acalmem-se e conformem-se.

Ouvindo tais palavras, sentimo-nos envergonhados e represamos as lágrimas; e ele pôs-se a andar, até que, conforme disse, as pernas começaram a fraquear; deitou-se então de costas, de acordo com as instruções recebidas; e o homem que lhe dera o veneno vez em vez observava-lhe os pés e as pernas; depois de algum tempo, apertou-lhe os pés com força e perguntou-lhe se os sentia; Sócrates respondeu:

– Não.

Em seguida apertou-lhe as pernas, cada vez mais para cima, e mostrou-nos que estavam frias e hirtas; e então Sócrates notou-lhes o estado e disse:

– Quando o veneno chegar ao coração, será o fim de tudo.

Já começava a sentir frio o baixo ventre quando descobriu o rosto (pois o havia velado) e disse (e foram suas últimas palavras):

– Críton, devo um galo a Asclépio. Não esqueça de pagar essa dívida. – Assim o farei – respondeu Críton. – Mais alguma coisa?

Essa pergunta não obteve resposta, e daí a alguns instantes viram-no estremecer. O carcereiro o descobriu; tinha os olhos parados. Críton fechou-lhe as pálpebras e a boca.

Tal o fim de nosso amigo, a quem com verdade chamarei o mais sábio, o mais justo e o melhor de todos os homens que conheci."

*   *   *
Depois, dessa comovente e bela página de Platão, desejo acrescentar tão somente uma breve nota. Ao dizer que iam sepultar apenas seu corpo, Sócrates, na iminência da morte, quis, ainda uma vez, lembrar a seus discípulos que é preciso sentir o outro aspecto da natureza humana e dos demais seres: o real, o verdadeiro, o imortal e eterno.

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