Valdir Aguilera
 Físico e pesquisador

 

 

História do racionalismo - 52

José Alves Martins

Em busca do rei-filósofo

Antes de dizer algo sobre os conceitos filosóficos de Platão, iniciamos o capítulo sobre esse grande racionalista grego falando um pouco de sua vida e da Atenas de seu tempo.

Ele nasceu em 427 a.C. nessa cidade grega, onde morreu, em 347 a.C., aos 80 anos. Descendia, pelo lado paterno, do rei Codro e, pelo lado materno, de Sólon, estadista, legislador e poeta grego, considerado um dos Sete Sábios da Grécia antiga. Como já foi dito, "Platão" era apelido. Chamavam-no assim por ter espáduas e fronte largas, sendo seu nome verdadeiro Aristocles. O apelido eternizou-se e eclipsou o verdadeiro nome. Moço robusto, distinguiu-se como soldado e ganhou prêmios em duas competições dos Jogos Ístmicos. Dedicou-se também, na juventude, à literatura, tendo escrito poemas e até uma tragédia. Seu encontro, aos 20 anos, com Sócrates, porém, o despertou para sua real vocação – a filosofia.

Seus esforços para salvar Sócrates tornaram-no suspeito aos chefes do então vigente regime democrático. Seus amigos alertaram-no para o perigo que corria se não fugisse de Atenas. Temendo realmente por sua segurança e desgostoso com sua cidade, que condenara injustamente seu querido amigo e mestre, Platão partiu em 399 a.C., mesmo ano da morte de Sócrates. Foi primeiro para o Egito. Depois velejou rumo à Sicília e à Itália, onde se juntou aos membros da escola filosófica e científica fundada por Pitágoras, convivendo com essa irmandade algum tempo. "Seu espírito impressionável", diz um historiador, "recebeu fundos vincos dos amigos pitagóricos, dedicados ao estudo e a governar, vivendo com simplicidade, apesar de ter nas mãos as rédeas do poder." Ainda segundo o estudioso, Platão peregrinou 12 anos, "impregnando-se da sabedoria de todas as fontes. Querem alguns que tenha chegado à Judeia, onde por algum tempo se influenciou com as tradições daqueles profetas quase socialistas. E mesmo que se haja dirigido às margens do Ganges, aí conhecendo as meditações místicas dos hindus. Regressou para Atenas em 387 a.C. Era então homem de 40 anos, de espírito amadurecido pela visão da variedade de povos e pela sabedoria das muitas terras perlustradas".

Viagem Em 388 a.C. Platão, viajou para Siracusa, florescente e poderosa capital da Sicília, para onde haveria de voltar mais duas vezes. Lá conheceu Dião, cunhado do rei, Dionísio I, ou Dionísio, o Velho. Impressionado com as ideias de Platão, o nobre Dião expressou ao filósofo seu desejo de apresentá-lo a Dionísio. Esperava que o rei se dispusesse a ouvir e pôr em prática as concepções do mestre sobre política. O que implicaria, para Dionísio, tornar-se um rei-filósofo, abandonando a tirania e governando o país com leis, justiça e verdadeira sabedoria política. Platão, radiante, de pronto concordou com a proposta de Dião. Diferentemente, porém, de Dião, Dionísio não se entusiasmou com as ideias de Platão e resolveu deixar tudo como estava. O plano fracassou e tudo terminou, na verdade, com duas desagradáveis e lastimáveis consequências para nosso filósofo: "uma azeda altercação" com Dionísio e o aristocrático Platão vendido como escravo.

Algum tempo depois, um amigo e discípulo do mestre, chamado Aniceris, tendo tomado conhecimento de sua humilhante situação, conseguiu resgatá-lo e repatriá-lo. Ao recusar ser reembolsado, por adeptos atenienses de Platão, da quantia que pagara pelo resgate do filósofo, Aniceris respondeu que amparar a filosofia não era privilégio deles.

Ao voltar para Atenas, Platão estava frustrado e profundamente ferido. Uma vez, porém, refeito do golpe sofrido com o infeliz incidente, fundou em Colona, povoado próximo da cidade, seu instituto de pesquisa filosófica, o primeiro do Ocidente. De caráter eminentemente laico, a entidade recebeu de Platão o nome de Academia, por se localizar nos jardins de Academos, nome de um lendário herói ateniense.

Com a morte de Dionísio I, o Velho, em 366 a.C., o poder ficou sob a regência de Dião, por ser Dionísio II ainda muito jovem. Platão, que a essa altura já havia escrito parte de sua obra mais importante, A República, sobre o Estado ideal, foi convidado por Dião a fazer uma segunda viagem a Siracusa, agora para cuidar da educação política de Dionísio, o Jovem. Mas essa segunda tentativa de aplicar suas concepções sobre política em Siracusa também fracassaria. Aconselhado por adversários de Dião, o jovem Dionísio II o destituiu da regência e assumiu o poder. Mesmo exilado, Dião chefiou uma conspiração e conseguiu reaver o comando do governo, mas logo foi deposto e aprisionado. Quanto a Platão, depois de ter sido quase vendido como escravo pela segunda vez, voltou para Atenas, novamente decepcionado e arrependido de ter posto, de novo, o pé no laço.

Conspiração Desde já, no entanto, adiantamos que o grande pensador há de cair no laço, mais uma vez, ao empreender, em 361 a.C., a terceira viagem a Siracusa. Deve-se dizer, porém, que ele só decidiu fazer uma terceira visita a essa cidade, para ele de tão triste memória, depois de muita insistência do próprio rei, Dionísio II, e dos amigos pitagóricos. Com a chegada de Platão, Dionísio convocou os membros do governo para que o mestre passasse a lhes expor suas ideias e orientações sobre o bom exercício do poder. Agora, tudo poderia correr bem. Mas Dião, que chefiava nova conspiração para retomar o poder, foi assassinado, seus aliados, presos, e Platão, tido como amigo dele, mantido prisioneiro no palácio de Dionísio como "professor convidado".

Se tal não bastasse, o filósofo foi vítima de outro duro golpe. Dionísio publicou um livro sobre assuntos de governo em que dizia expor as ideias de Platão, que, na verdade, não passavam de revoltante deturpação dos conceitos platônicos a respeito do assunto. Pondo um fim a tanta adversidade, Árquitas, seu amigo pitagórico e amigo também de Dionísio, conseguiu que este liberasse Platão, que pôde, enfim, regressar à sua Atenas, de onde nunca mais sairia.

O fracassado projeto de Platão de formar o rei-filósofo, comenta uma professora de filosofia, levou os historiadores a dizer que, "não tendo podido fazer do rei um filósofo, Platão escreverá para fazer do filósofo rei".

A Atenas que viu nascer Platão, em 427 a.C., estava em luta contra Esparta. Essa luta, iniciada em 431 a.C. (quatro anos antes do nascimento do filósofo), ficou conhecida como Guerra do Peloponeso. Resultado da permanente rivalidade entre as duas cidades, o conflito só terminaria em 404 a.C., tendo se prolongado, portanto, por quase três décadas. Além disso, em 429 a.C. (dois anos depois de começada a guerra e dois antes do nascimento de Platão), Atenas tinha perdido seu grande líder, o estadista Péricles, vítima da peste que atingira a cidade entre 430 e 429 a.C. e depois em 427 a.C, durante o cerco das tropas espartanas. Milhares de pessoas teriam sido dizimadas pela epidemia, segundo Tucídides, que narrou o longo conflito.

Platão, nascido em tempo de guerra, contava já, quando esta terminou – com a derrota de Atenas – 23 anos e havia três conhecera Sócrates.

Atenas fora até então a principal cidade da Grécia. Poderosa e rica, tinha liderado a Liga das Cidades do Mar Jônico e do Mar Egeu. A essa altura do século V a.C, orgulhava-se de ter inovado na política e de se haver tornado centro de efervescência econômica e cultural.

No final da vida de Platão, porém, Atenas apresentava, para tristeza do filósofo, um quadro desolador: era uma cidade decadente, debilitada política e militarmente, pronta para ser esmagada, em 338 a.C., nove anos depois da morte de Platão, pelo exército do rei Filipe da Macedônia. "A cultura, então, se tornará tagarelice, repetição morna do passado, saudosismo".

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