Valdir Aguilera
 Físico e pesquisador

 

 

A pré-história da Doutrina racionalista cristã

Glaci Ribeiro da Silva

[...] Tudo o que se acaba de narrar, que de muitos séculos esteve occulto nos templos egypcios, e por isso se denominou Occultismo, nada mais é do que o moderno Espiritismo Racional e Scientífico (christão), de que trata essa obra, que é a doutrina da Verdade, a qual tudo esclarece e colloca nos seus logares, como é preciso, visto que "Nada de novo há sobre a Terra". [...] (do livro "Espiritismo Racional e Scientifíco (christão), 11a ed., 1938, p. 19)

Todo conhecimento é fruto do trabalho de inúmeros estudiosos que a ele dedicaram muitos anos de sua vida. Um conhecimento novo, da mesma forma que um edifício em construção, vai se formando pouco a pouco. Cada tijolo que lhe é acrescentado representa o pensar de cada um desses estudiosos. No entanto, geralmente sua autoria é atribuída somente àquele responsável por colocar o último tijolo nessa construção. Esse raciocínio é válido tanto para descobertas científicas como, também, para as doutrinas filosóficas como é o caso do Racionalismo Cristão, uma doutrina espiritualista fundada em 1910 por Luiz de Mattos.

Esse artigo tem como principal objetivo analisar a genealogia da Doutrina Racionalista Cristã. Em outras palavras, ele visa a mostrar quem foram aqueles que, em passado remoto, contribuíram para a gênese, a origem dessa doutrina.

O que se irá ler aqui pode ser constatado na literatura mencionada na Bibliografia. De posse dessa literatura, meu trabalho foi selecionar, ordenar, e inserir cronologicamente os fatos, obedecendo à seqüência lógica dos acontecimentos, os quais aqui reunidos constituem o que chamei de pré-história da Doutrina Racionalista Cristã. É claro que a história que escrevemos não está completa, mas procuramos registrar aqui os acontecimentos mais relevantes.

Durante a Antiguidade e muito antes da era cristã, o espiritismo já era praticado em vários países como é o caso da Índia, do Egito e da Grécia. Na Antiguidade e em ordem cronológica, foram às idéias de Krishna, na Índia, Hermes, no Egito e, na Grécia, as de Pitágoras, Sócrates e Platão que, de acordo com o critério racionalista cristão, podem ser consideradas pioneiras na sua pré-história.

Esses três filósofos gregos pertenceram a períodos diferentes da filosofia. Pitágoras, foi do período Pré-socrático ou Cosmológico (final do século VII até final do século V a.C.), quando a filosofia se ocupa principalmente com a origem do mundo e as causas das transformações na natureza.

Já Sócrates e Platão fazem parte do período Socrático ou Antropológico quando a filosofia investiga as questões humanas e busca compreender qual é o lugar do homem no mundo.

Conhecimentos versando sobre temas diversos tais como a natureza da Inteligência Universal (conhecida pelo vulgo como Deus), a origem da alma, como e porquê elas encarnam e desencarnam, seus deveres, seus fins e outros similares e complementares a esses foram então se acumulando e sendo cuidadosamente escondidos nos Templos egípcios. Daí o rótulo de ciências ocultas (ou ocultismo) pelo qual eles ficaram conhecidos. Jesus foi o último a divulgar esses conhecimentos. E o fez publicamente, disso resultando sua trágica desencarnação.

Com exceção de Sócrates, todos os outros pioneiros dessa empreitada, inclusive Jesus, estiveram no Egito onde aprenderam as ciências ocultas com os sacerdotes dos Templos. A esse aprendizado era dado o nome de Iniciação sendo seus discípulos chamados de Iniciados. A iniciação envolvia várias fases e perdurava por vários anos. Ao finalizá-la alguns dos iniciados eram chamados Mestres.

Na maioria dos casos a transmissão desses conhecimentos era feita oralmente. Os gregos atribuíam a Hermes a autoria de quarenta e dois manuscritos sobre ciência oculta. No entanto, como na época não havia nem papiros nem escrita fonética, eles foram gravados em hieróglifos sobre as colunas e paredes das criptas. Mais tarde, essa ciência dos sacerdotes foi consideravelmente aumentada e por isso transferida para a biblioteca dos templos. Somente os escritos de Platão chegaram integralmente até nós. Pitágoras deixou um único manuscrito composto de três partes: Ética, Política e Física. Posteriormente ele foi vendido a Platão por Filolau, um pitagórico contemporâneo de Sócrates.

A Doutrina Racionalista Cristã é difundida pelo Centro Redentor fundado em 1911 no Rio de Janeiro. Ela nasceu em Santos, tendo sido divulgada, também, desde 1910 até 1916, pelo Centro Espírita Amor e Caridade de Santos, no Estado de S. Paulo. O Centro Redentor é uma instituição filosófica, progressista, filantrópica e evolucionista. Tem como objetivo a prática desinteressada dessa doutrina além de incentivar a instrução e a cultura.

Coube ao Brasil o privilégio de acolher Luiz de Mattos, um bravo lusitano dotado de personalidade primorosa, o qual em troca desse acolhimento brindou o povo brasileiro com o melhor prêmio que lhe podia ser conferido - a Escola Filosófica Racionalista Cristã. Desde a sua fundação até o presente, a Doutrina passou por três diferentes fases: Codificação, Consolidação e Expansão.

Até 1946, a Doutrina Racionalista Cristã era denominada Espiritismo Racional e Científico Cristão. Mas, nessa época várias transformações já haviam ocorrido na Doutrina que a faziam transcender do conceito espírita para o racional. Foi por isso decidido mudar seu nome para Racionalismo Cristão. Essa providência foi tomada por Antônio Cottas que deste modo consolidou a Doutrina preparando-a para a expansão. Com isso, a cosmovisão racionalista cristã passou a ter clareza e transparência absoluta, deixando de ser definitivamente confundida com a proposta espírita kardecista.

Foi Luiz de Mattos o responsável pela Codificação da Doutrina racionalista cristã. Codificação significa reunir em códice (do latim, codice) ou seja, registrar, compilar manuscritos e documentos históricos. E, nessa busca pelo saber espiritualista, Luiz de Mattos certamente encontrou os maiores problemas ao compilar documentos mais remotos. Pois embora ele reconhecesse a importância dos fatos em si, havia neles muito misticismo religioso. Foi necessário portanto, escoimá-los, livrá-los das impurezas, separando assim o joio do trigo. Em suma: foi preciso analisá-los a luz da razão, torná-los racionais.

Por ter implantado a Doutrina da Verdade no planeta Terra seguindo fielmente uma orientação do Astral Superior, Luiz de Mattos foi o maior dos instrumentos de Jesus. A Doutrina de Jesus deveria, desde que surgiu, ter esclarecido a humanidade. Contudo, após a sua desencarnação, o cristianismo daquela época, entrando em contato com outras culturas muito diversas e influenciado pelas idéias de Paulo de Tarso, perdeu a unidade. Paulo de Tarso dizendo-se inspirado pelos doze apóstolos pregou uma doutrina nova e completamente difierente baseada em dogmas religiosos universais.

A obra de Cristo só pôde ser divulgada agora pelo Racionalismo Cristão, depois que Jesus terminou a implantação na Terra da sua corrente fluídica na qual Ele pode descer no início dessa monumental obra. Mas isso apenas se deu em 1910 no Centro Amor e Caridade de Santos e em 1912 no Centro Redentor do Rio de Janeiro. Consta registrada no livro de atas do Centro Redentor do Rio de Janeiro, a rápida mensagem de Cristo num período menor do que um minuto, com uma corrente formada por cerca de cinqüenta pessoas honradas e esclarecidas, concitando os fundadores da Doutrina a lutarem para que ela não tivesse a mesma sorte das tentativas anteriores. Isso somente ocorreu para estímulo dos que inicialmente tiveram que arcar com a responsabilidade da implantação do Racionalismo Cristão. Hoje, o Cristo não mais desce a Terra porém preside os desígnios, os propósitos, da evolução deste planeta, bem como, dos seus habitantes.

Faremos a seguir um resumo dos conhecimentos filosóficos de Krishna, Hermes, Sócrates e Platão. Nesse resumo não estamos incluindo os de Pitágoras por ter sido ele o tema de dois artigos que publicamos recentemente (ver na bibliografia: "A música e seus segredos" e "Doutrina racionalista cristã e o pitagorismo").

Dados confiáveis sobre os conhecimentos de Krishna e Hermes são difíceis de serem encontrados. Por isso, resolvemos transcrever o que consta sobre eles, no livro "Espiritismo Racional e Scientífico (christão)", 11a ed., 1938, p. 17 - 19. Para facilitar a leitura, a ortografia da época foi atualizada.

"Na Índia - três mil anos antes da era de Cristo - surgiu, dentre a sua grande população, Krishna que proclamava a existência de um único elemento Inteligente, também denominado Grande Foco, e ao qual o vulgo chama Deus; e, proclamava a imortalidade da alma, seu progresso através de múltiplas encarnações, deduzindo de tais ensinamentos uma moral puríssima. Falando da Inteligência Universal, dizia que Ela ocupava todo o Universo.

Sobre a imortalidade da alma dizia:

O corpo, invólucro da alma, que faz dele a sua morada, é uma coisa finita; porém, a alma que o habita é invisível *, imponderável, incorruptível e eterna. ( * Para os olhos materiais, dizem os espíritas racionalistas cristãos.)

Tratando da reencarnação, dizia:

Quando o corpo morre, se o ser foi esclarecido na Terra, a alma ascende às regiões desses seres puros, que possuem o conhecimento do Altíssimo; mas, se a alma quando encarnada na Terra se deixou dominar pelas paixões, pelos desejos intemperados, é então obrigada a voltar de novo à Terra, para resgatar o tempo perdido. E, dizia mais: Eu e vós outros temos tido múltiplas encarnações. As minhas só de mim são conhecidas, enquanto que vós não conheceis nem as vossas.

Quanto a Moral, dizia Krishna:

Os males com que atormentamos o nosso próximo nos perseguem, como a nossa sombra ao nosso corpo. As obras, cujo móvel é o amor ao próximo, devem ser ambicionadas pelo justo, porque são as que mais pesarão na balança celestial*. Se só freqüentares os bons, teus exemplos serão inúteis; não temas viver entre os maus, para os atraíres ao bem. O homem virtuoso é parecido com a árvore de nossas florestas, cuja sombra benéfica dá as plantas que a rodeiam a frescura da vida. (*Da vida real, dizemos nós.)

Hermes, no Alto Egito, muitos mil anos antes da era cristã, afirmava:

a) Que o Grande Foco era o único que vivia em substância, o único gerador de tudo quanto existia nos Céus* e na Terra, e o único que não foi gerado. (* Mundos brancos, diáfanos e de luz que o vulgo chama estrelas.)

b) Que os seus atributos eram a imensidade, a eternidade, a independência, a vontade toda poderosa, a bondade sem limites.

c) Dizia ele ainda, e continuaram depois dele os sacerdotes dos templos egípcios, sobre o destino da alma, sua imortalidade e reencarnação:

O espírito do homem tem duas fases: cativeiro na matéria e ascensão à luz. As almas são filhas do Céu*. Durante a encarnação perdem a recordação de sua origem. Cativas da matéria, embriagadas pela vida, precipitam-se como chuva de fogo, com sensações voluptuosas, através das regiões do sofrimento, do amor e da morte, até a prisão terrena, onde a vida real parece um sonho vão. As almas baixas e perversas permanecem amarradas à Terra, por múltiplos renascimentos; porém, as almas virtuosas se elevam às esferas superiores, onde recobram a vista das coisas reais nas quais se impregnam com a luz da consciência iluminada pela dor, com a energia da vontade adquirida na luta. Fazem-se luminosas, pois que possuem a luz em si mesma, e irradiam essa luz em seus atos. (* Do Grande Foco, dizemos nós.)"

Sobre Sócrates

O retrato que a história da filosofia possui de Sócrates foi traçado por seu mais importante aluno e discípulo - Platão. Sabe-se com certeza somente a data de sua morte, que aconteceu em 399 a.C. Mas é possível que ele tenha nascido em torno de 469 a.C. pois, de acordo com Platão, ele morreu com setenta anos. Sócrates jamais saiu de Atenas, a não ser quando chamado a participar de campanhas militares. Não quis participar da vida política, julgando negativamente os métodos pelas quais eram administradas as coisas públicas.

Para Sócrates o importante era crer no justo e no verdadeiro e aplicar isso na vida. Seus argumentos tomavam uma grande força em sua boca, pois ele próprio oferecia os exemplos disso: cidadão exemplar, soldado intrépido, juiz íntegro, amigo fiel e desinteressado, mestre absoluto de todas as suas paixões. Um homem bem simples, mas um grande original esse bom Sócrates. Ele era conhecedor das idéias de Pitágoras mas, para não sair do seu papel de simplificador, sempre se recusou a fazer a Iniciação. Mas quando falava sobre o assunto, o bom, o espiritual Sócrates mudava de rosto: seus olhos se iluminavam, um raio passava sobre seu crânio calvo e de sua boca saia uma das sentenças simples e luminosas que costumava dizer.

Sócrates é considerado como o Patrono da Filosofia sendo seu nome usado como referência na divisão dos dois períodos iniciais da filosofia grega. O período cosmológico é pré-socrático e o antropológico é socrático.

Os primeiros filósofos do período socrático foram os Sofistas. Eles alegavam que os ensinamentos dos filósofos anteriores estavam repletos de erros e contradições e não tinham nenhuma utilidade para a vida na cidade. Apresentavam-se como mestres da arte de falar ao público (oratória) e do uso persuasivo da linguagem (retórica) e se propunham a ensinar tal arte aos jovens para que eles se tornassem bons cidadãos. Eles se dirigiam principalmente aos jovens, pois a juventude era o momento em que o cidadão mais aparecia e exercia a sua cidadania. Com os sofistas os jovens aprendiam a defender a opinião "A", depois a posição contrária - "não-A" -, de modo que numa assembléia soubessem argumentar a favor ou contra uma opinião e ganhassem sempre a discussão.

Os sofistas se haviam abatido como uma nuvem de gafanhotos sobre a cidade de Atenas. Eles eram a contraposição, a negação viva do filósofo, assim como o demagogo é a contraposição do político honrado. O tipo grego do sofista é mais sutil, mais pensador, mais corrosivo que os outros. Mas o gênero pertence a todas as civilizações decadentes. Eles sempre negavam a verdade e afirmavam que não há diferença entre ela e o erro; a única verdade para eles é a opinião deles próprios e a única justiça, a força. Eles eram alegres e divertidos; e, cobrando muito caro por suas lições, levavam jovens á libidinagem, à intriga e à tirania.

Sócrates combatia os sofistas, dizendo que eles não eram filósofos, pois não tinham amor pela sabedoria nem respeito pela verdade já que defendiam qualquer idéia desde que isso fosse vantajoso, corrompendo o espírito dos jovens, pois faziam o erro e a mentira valer tanto quanto a verdade. Propunha que antes de querer conhecer a natureza, antes de querer persuadir os outros, cada um deveria, primeiro e antes de tudo, conhecer-se a si mesmo. A expressão "Conhece-te a ti mesmo" foi o centro das investigações de Sócrates. E justifica a denominação desse período filosófico de Antropológico (em grego, de ántropos, homem + logia, estudo) por ser ele voltado para o conhecimento do homem em si, particularmente do seu espírito e de sua capacidade de conhecer a verdade.

Sócrates andava pelas ruas e praças de Atenas fazendo perguntas sobre as idéias, sobre os valores nos quais os gregos acreditavam e que julgavam conhecer. Suas perguntas deixavam os interlocutores embaraçados e irritados, pois quando tentavam responder ao célebre "O que é" descobriam surpresos que não sabiam responder e que nunca tinham pensado em suas crenças, seus valores e suas idéias. As pessoas esperavam que Sócrates soubesse a respostas das perguntas que ele havia feito mas, para desconserto geral, ele dizia: "Eu também não sei; por isso estou perguntando". Donde a famosa expressão atribuída a ele: "Só sei que nada sei". Para ele, a consciência da própria ignorância é o começo da filosofia. E era isso que queria ensinar aos jovens ao dizer a frase acima.

Afinal, o que procurava Sócrates?

Procurava a definição daquilo que uma coisa, uma idéia ou um valor é verdadeiramente. Aquilo que uma coisa, uma idéia, um valor é em si mesmo chama-se Essência. Sócrates procurava a essência real e verdadeira da coisa, da idéia, do valor. Como a essência não é dada pela percepção sensorial e sim encontrada pelo trabalho do pensamento, procurá-la é procurar o que o pensamento conhece da realidade e da verdade de uma coisa, de uma idéia, de um valor. Isso que o pensamento conhece da essência chama-se Conceito. Sócrates procurava o conceito, e não a mera opinião que temos de nós mesmos, das coisas, das idéias e dos valores.

Qual a diferença entre uma opinião e um conceito? A opinião varia de pessoa para pessoa, de lugar para lugar, de época para época. É instável, mutável, depende de cada um, de seus gostos e preferências. O conceito, ao contrário é uma verdade intemporal, universal e necessária que o pensamento descobre, mostrando o que é a essência universal, intemporal de alguma coisa. As perguntas de Sócrates se referiam a idéias, a valores, a práticas e comportamentos que os atenienses julgavam certos e verdadeiros em si mesmo e por si mesmo. Ao fazer suas perguntas e suscitar dúvidas, Sócrates os fazia pensar.

A mãe de Sócrates era parteira, que em grego é maieutas. Essa técnica pedagógica usada por Sócrates de ensinar seus discípulos através do diálogo, da dialética, mostrando suas opiniões erradas e dirigindo-os ao caminho certo recebeu o nome de Maiêutica; pois, na concepção do filósofo, fazendo isso ele estava auxiliando o "parto da verdade" em seus discípulos da mesma forma como sua mãe auxiliava o parto de crianças. Esse método foi descrito no livro de Platão intitulado "Apologia de Sócrates".

Sabemos que os poderosos têm medo do pensamento, pois o poder é mais fácil de se exercer se ninguém pensar, se todo o mundo aceitar as coisas como elas são, ou melhor, como nos dizem e nos fazem acreditar que elas são. Para os poderosos de Atenas, Sócrates tornara-se um perigo pois fazia a juventude pensar. Por isso eles o acusaram de desrespeitar os deuses, corromper os jovens e violar as leis. Levado perante a assembléia, Sócrates não se defendeu e foi condenado a suicidar-se tomando um veneno - a cicuta. Por que Sócrates não se defendeu? Porque, dizia ele: "Se eu me defender estarei aceitando as acusações, e eu não as aceito. Se eu não me defender, o que os juízes vão exigir de mim? Que eu pare de filosofar. Mas, eu prefiro a morte a ter que renunciar à filosofia".

Sobre Platão

Platão nasceu em Atenas, no ano 427 a.C. Era um jovem alto, ombros largos, grave, recolhido, quase sempre silencioso; uma modéstia natural escondia a seriedade do seu espírito. Seu primeiro entusiasmo foi com as artes. Ele era de bom berço, seu pai dizia descender do rei Cotrus e sua mãe, de Sólon. Sua juventude foi, portanto, de um ateniense rico, rodeado do luxo e das seduções de uma época de decadência. Ele viveu a vida dos seus semelhantes, sem excesso e sem hipocrisia, gozando de boa herança, rodeado e festejado por numerosos amigos. Era um poeta e gostava de escrever. Com 27 anos, já havia composto diversas tragédias. E, ia apresentar uma delas num concurso.

Foi nessa época que Platão encontrou Sócrates, que dialogava com jovens nos jardins de um parque público em Atenas que se chamava Academia. Ele falava sobre o justo e o injusto, sobre o belo, o bom e o verdadeiro. O poeta se aproximou do filósofo, escutou-o, voltou na manhã seguinte e nos outros dias. No fim de algumas semanas, uma revolução completa se fizera em seu espírito. O feliz jovem, o poeta cheio de ilusões, não se reconhecia mais. O curso de seus pensamentos, o objetivo de sua vida, havia mudado. Outro Platão acabava de nascer, sobre a palavra daquele que se chamava "um parteiro de almas". E, na flor da juventude esquecendo e deixando tudo o que amara até então, decidiu tornar-se discípulo de Sócrates. Em 399 a.C., três anos depois de Platão ter tomado essa resolução, Sócrates foi condenado à morte.

A serena imagem de Sócrates morrendo pela verdade e passando seus últimos momentos a falar de imortalidade e da alma com seus discípulos, marcou profundamente Platão. Mais tarde, ele iria estudar física, metafísica e muitas outras ciências; mas continuou sendo sempre discípulo de Sócrates. Ele nos legou sua imagem viva pondo na boca do mestre os tesouros do seu próprio pensamento. Essa forte modéstia faz dele o ideal de discípulo, como o calor do seu entusiasmo faz dele o poeta dos filósofos. Apesar de sabermos que ele fundou sua Escola com a idade de cinqüenta e que morreu com oitenta anos, só podemos imaginá-lo sempre como um jovem entusiasmado.

Quanto mais uma alma é grande e profunda, mais tempo ela emprega para conhecer a si mesmo. E, Platão procurou fazer isso viajando à procura de conhecimentos. Ele os procurou em todas as fontes accessíveis do Mundo Antigo. Seguiu as lições de diversos filósofos da Ásia Menor. De lá, foi para o Egito e fez sua Iniciação. Depois foi à Itália meridional para entrar em contato com os pitagóricos, pois sabia ter sido Pitágoras o maior dos sábios gregos. Foi dele que Platão tomou emprestado suas principais idéias e a ossatura, a estrutura do seu sistema filosófico - o platonismo.

De volta à Atenas, Platão fundou sua Escola que se tornou célebre sob o nome de Academia. Para continuar a obra de Sócrates, era preciso divulgar a Verdade. Mas Platão não podia divulgar publicamente os ensinamentos de Pitágoras. Os juramentos que fizera como Iniciado, a prudência e seu próprio objetivo o proibiam. Essa foi à razão de ele ter decidido divulgar a Doutrina Esotérica de Pitágoras unicamente através da voz e no interior da Academia.

Também nos seus escritos, Platão não apresentou suas idéias de um modo sistemático. Seu pensamento tem que ser deduzido através do raciocínio a partir de textos escritos em forma de conversação ou diálogos nos quais ele não aparece abertamente. O encanto principal dos Diálogos de Platão consiste na encenação dramática, nos cenários, nos personagens divertidos e na ironia jovial de Sócrates, o personagem principal de muitos deles. Da mesma forma que seu Mestre, ele dirigiu esses diálogos aos jovens de Atenas. E combateu assim os sofistas de uma forma dissimulada, cheia de sutilezas usando muitas vezes como ferramenta mitos, lendas e parábolas. Os Diálogos de Platão têm um charme especial e único: nele encontramos facilmente partes da Doutrina Esotérica ao lado da malícia e da ironia do bom Sócrates.

Os historiadores sempre acreditaram que o texto escrito seria a expressão mais plena e significativa do pensamento de um autor. Julgava-se assim, ser possível extrair dos escritos de Platão, todo o seu pensamento. Atualmente, porém, vários estudiosos têm mostrado que no caso de Platão, esse raciocínio é errado e sem fundamento. Depois de várias investigações, eles chegaram a conclusão que Platão transmitia sua verdadeira filosofia nas chamadas "Doutrinas Não-Escritas" ou Esotéricas.

Em artigo recente mostramos a irrestrita admiração que o médico Pinheiro Guedes - um ícone da Doutrina Racionalista Cristã - tinha pela Doutrina Esotérica de Pitágoras (ver bibliografia, "Doutrina Racionalista Cristã e o pitagorismo").

Dentro deste contexto, é interessante lembrar que Alberto Seabra, um outro médico, cujas opiniões são várias vezes mencionadas pelo Mestre Luiz de Mattos em seu livro "Pela Verdade: a ação do espírito sobre a matéria", seguia igualmente a Doutrina Esotérica. Dr. Alberto Seabra (1872 - 1936) nasceu em S.Paulo e publicou vários livros. Dentre eles, um intitulado "O problema do Além e do Destino" do qual possuo um exemplar. Alberto Seabra era filiado ao Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento. Isso pode ser constatado facilmente nesse livro, pois na sua contra capa existem, até mesmo, informações sobre a finalidade e os estatutos dessa organização.

A época atual tem sido chamada por muitos de Era Espiritualista. E nela a Doutrina Racionalista Cristã, cuja pré-história acabamos de narrar, está vivenciando a sua Fase de Expansão. Essa expansão está sendo feita de um modo muito eficaz usando-se a internet como ferramenta e, tendo no comando, a força e a decisão de dois homens idealistas - Humberto Rodrigues e Gilberto Silva.

Bibliografia

Doucet, Friedrich. O Livro de Ouro das Ciências Ocultas. S. Paulo, Ediouro Publicações S.A., 1990.

ESPIRITISMO RACIONAL E SCIENTIFICO (christão). Rio de Janeiro, Edição do Centro Espírita Redemptor, 11a ed., 1938.

Faria, Fernando. A Vida e Obra de Luiz de Mattos. Livro ainda não publicado.

Mattos, Luiz de. Pela Verdade: a ação do espírito sobre a matéria. Rio de Janeiro, Editora Centro Redentor, 9a ed., 1983.

Reale, Giovanni. História da Filosofia Antiga, volume 1. S. Paulo, Edições Loyola, 9a ed., 1980.

Reale, Giovanni. História da Filosofia Antiga, volume 2. S. Paulo, Edições Loyola, 9a ed., 1980.

Seabra, Alberto. O Problema do Além e do Destino. S. Paulo, Editora O Pensamento, 3a ed., 1927.

Schuré, Édouard. Os Grandes Iniciados. S. Paulo, Madras Editora Ltda, 2003.

Silva, Glaci Ribeiro da. A música e seus segredos. Gazeta do Racionalismo Cristão, Julho de 2006
www.gazeta.racionalismocristao.org

Silva, Glaci Ribeiro da. Doutrina Racionalista Cristã e o pitagorismo. Gazeta do Racionalismo Cristão, Setembro de 2006.
www.gazeta.racionalismocristao.org



Este artigo foi publicado originalmente na Gazeta do Racionalismo Cristão em outubro de 2006.  

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