Valdir Aguilera
 Físico e pesquisador

 

 

Exemplos estão dentro de casa

Valéria Souza

"Se os ouvintes ouvem uma coisa, e vêem outra, como se hão de converter?" - Essas foram as palavras proferidas por Antonio Vieira em março de 1655, na Capela Real de Lisboa, palavras cuja grande sabedoria até hoje se pode observar.

Quem, em seu juízo perfeito, não observou incoerências daqueles com quem mantém relações sociais, seja no trabalho, seja na família (aqui compreendida como grupo social que reúne pai, mãe, irmãos, tios, tias, primos, primas, os maravilhosos avós, que tudo fazem pelos netos etc.), seja nas relações escolares, enfim, nas pessoas com quem travamos conhecimento, de qualquer natureza? Incoerências geram atitudes antiéticas, que somente nos fazem sofrer, mas é um sofrer que nos faz crescer, pois esse sofrimento somente nos faz pensar, repensar, pensar novamente, e se não estivermos firmemente apoiados em uma conduta ética baseada na espiritualidade, baseada na frase atribuída a Cristo, 'Não as faças que as pagas', então estaremos a meio caminho da falência espiritual, pois a adoção de uma conduta ética nos mostra o quanto é longo, mas profícuo, o caminhar pela estrada da espiritualidade - é longo, sim, mas se soubermos pôr em ação nossos atributos espirituais da lógica, do bom senso, do raciocínio, então esse desabrochar será firme e seguro.

Essa segurança somente será adquirida por meio de reflexões durante nossa permanência no planeta Terra, pois é nesse planeta-escola que apreenderemos as lições necessárias para desenvolvermos nosso atributos intelectuais - e essa reflexão nos obriga a raciocinar a respeito da frase proferida por Antonio Vieira.

Ora, quem, em sua infância não observou as ações de seus pais, de seus parentes, posteriormente, de seus colegas, de seus chefes, de seus subordinados e não teve uma sensação ora de incredulidade pelo que viu, ora de alegria pelo que observou, ora de raiva, desgosto, desespero, achando que de nada valia a pena seguir as normas de conduta baseadas na frase atribuída a Cristo?

Na atual conjuntura em que vivemos, observa-se uma profunda falta de ética da parte daqueles que deveriam ser nossos modelos de conduta - pai, mãe, avós, professores, chefes, dirigentes etc. -, chegando a tentar nos envolver com sofismas para nos fazer desistir de tomar o caminho certo, o caminho da virtude, envolvendo-nos com seus exemplos nocivos, perniciosos: a ação, quando praticada com segundas intenções, quando praticada por má-fé, e, o que é pior, achando que é o caminho certo, que é a conduta certa, somente nos leva à falência moral, à aquisição de novas dívidas espirituais que deverão ser resgatadas em encarnações posteriores, principalmente porque servirão de modelo de conduta para as gerações vindouras.

O que se observa em nosso planeta, hoje, nada mais é do que o reflexo das ações passadas da própria humanidade!

É preciso caminhar, é preciso lutar por dias melhores, procurando adotar uma conduta digna, reta, que faça com que as pessoas que nos cercam nos vejam como um modelo a ser seguido por nossa conduta moral, por nossa conduta retilínea, e que sejam, como diria Antonio Vieira, 'convertidos' à virtude, à razão, ao bom senso, ao amor ao próximo. Afinal, quem o mal semear, mesmo que inconscientemente, o mal colherá!

Publicado em A Razão, maio 2006, p. 5

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